Os miúdos do Benfica morrem sempre na praia

A nação anda entusiasmada com André Gomes e com o regresso da miudagem portuguesa à equipa. Mas esta é a mesma nação que triturou vários André Gomes ao longo dos últimos vinte anos. Ao contrário do que se diz, o Benfica continuou a formar craques. A nação e o craque têm uma relação química, física e metafísica: mesmo que tivesse o pior departamento de prospeção do mundo, a nação criaria sempre craques. Problema? Vinte anos de gestão precipitada, sempre atrás da cauda de Pinto da Costa, não deram tempo às equipas, aos treinadores (lembram-se de Mourinho?) e aos miúdos. Sim, muitos miúdos. Só na posição do André Gomes a minha memória regista uma mão cheia de craques que tinham tudo para passar à lenda.

Com cabelo de galã e corpanzil de porteiro de discoteca, Bruno Caires era o médio-centro derradeiro, era um Paulo Sousa mas em muito bom. Não precisava de correr para cortar bolas, usava o corpo para destruir adversários e tinha uma relação cordial com os avançados . Ganhou a Taça (1996) ao lado de Valdo, Paulo Bento e João Pinto, e depois desapareceu sem deixar rastro. Se Bruno Caires era o meio-campista em versão Schwarzenegger, Ednilson era mais um Bruce Leerápido, levezinho, mas implacável no corte . Durante algum tempo, foi o trinco dos trincos. Limpava o meio-campo como quem tomava o chá das cinco, ou seja, respirava classe. Lembro-me de ir à Luz na expectativa de o ver jogar. Sim, podemos ir à bola para ver trincos e guarda-redes . Tal como Caires, Ednilson desapareceu. Com o factor x do 10 latino, Hugo Leal apareceu aos 17 anos, batendo o recorde de precocidade de Chalana . Leal tinha com o passe de ruptura a mesma relação que 007 tem com Moneypenny: era tudo dele. Fez grandes jogos na Champions de 1998/1999 (contra o PSV no último dia da Expo 98), alimentando Nuno Gomes e João Pinto. De forma incompreensível, perdemos o miúdo e ele perdeu-se. Desta lista de médios-centro criados na Luz, apenas Manuel Fernandes teve tempo e espaço para crescer. Não por acaso, a equipa que Fernandes oxigenava foi campeã (2005) e derramou charme na Champions (2006). 

Se puxasse mais pela memória, surgiriam outras promessas que a nação matou à nascença. Os André Gomes do passado recente não pegaram na equipa, porque a nação não lhes deu tempo ou um projecto de confiança. Passámos os últimos vinte anos a contratar centos de sul-americanos por época, sempre debaixo da ilusão que esse era o caminho mais rápido para derrubar a agremiação norte-coreana lá de cima. Neste vinte anos, ganhámos três campeonatos. Se calhar, já mudávamos de política. Se calhar, devíamos dar mais tempo aos meninos, suportando os possíveis disparates que eles possam fazer. A tal mística é isso.

Henrique Raposo, Jornal Expresso

3 pensamentos sobre “Os miúdos do Benfica morrem sempre na praia

    1. Esqueceu-se de dizer porque é que Hugo Leal ou Manuel Fernandes não vingaram no Benfica. Não foi porque o Benfica não quis. Foi porque eles não quiserem e forçaram sempre a saída. Quanto a Bruno Caires e Ednilson foram aqueles anos. Mas realmente o tempo encarregou-se de demonstrar que eles serviam para o Benfica da altura mas estavam a anos luz para o Benfica de hoje.

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